quarta-feira, 14 de setembro de 2016

BOOK review \\ "O Deus das Moscas", William Golding

Desta vez, decidi arriscar numa nova forma de realizar reviews de livros, talvez algo mais completo. Estando numa onda de experiências, ainda não sei se esta será a fórmula final, ou pelo menos, a que adotarei daqui para a frente para algumas obras. Tudo dependerá do vosso feedback. Da lista de livros que queria ler ainda este ano, esta foi uma das leituras completadas. Demorei o meu tempo, mas sempre com a vontade de absorver as informações e sensações que esta leitura soube proporcionar-me. Não direi que é um livro difícil, pois estaria a mentir. Uma das coisas que me prendeu foi exatamente a linguagem simples e poética, que nos envolve e cativa a cada parágrafo. É um misto de descrições e falas, sempre com mensagens que valem a pena a reflexão.

FICHA TÉCNICA
Título original: Lord os the Flies
Autor: William Golding
Editora: Coleção Mil Folhas (Foi vendido exclusivamente com o jornal Público)
Páginas: 226
ISBN: 0-571-05686-5

Publicado em 1954, "O Deus das Moscas" já teve direito a duas adaptações cinematográficas, uma em 1963 e outra em 1990. Para quem desconhece, o seu título é uma referência a Belzebu, uma divindade das mitologias dos filisteus e de Canaã, com várias referências na Bíblia como sendo o próprio diabo. A obra em si, retrata o ""desenvolvimento"" de um grupo de crianças, para o seu estado selvagem, a partir do dia em que o avião que as afastava da guerra, despenha numa ilha deserta. Longe da supervisão adulta, este grupo tenta organizar-se da melhor maneira possível, mal sabendo eles que aquilo que eram no meio da sociedade inglesa, estava prestes a desmoronar-se.

Atualmente, e mesmo das poucas distopias que li de antigamente, o grupo atingido pelas regras da sociedade, esfomeados pela mudança, são sempre os adultos. Se entram crianças, mal têm direito a cinco minutos de fama, passando despercebidas naquele enredo... Porém, aqui não é assim. A cada dia que passa, a inocência de que são conotadas é devorada por um instinto de sobrevivência e selvajaria aterrorizantes. Sem adultos e quem os comande, planta-se ali um campo de forças, sendo que os mais fortes prevalecem. Quando despenham, são domados pelo medo e receio de falharem e de não conseguirem escapar da ilha com vida. Contudo, lá conseguem organizar-se. O que eu mais gostei neste livro foi exatamente o facto de pequenas crianças, mas é que mesmo muito jovens, se terem revelado a cada capítulo. Quando dava por mim, sentia que tinha à frente uma narração de um grupo de adultos, e quando voltava à realidade, apercebia-me de que não, eu estava a ler páginas carregadas da vivência de crianças, indivíduos capazes de crimes, que a dado momento nos fazem questionar se são cometidos de forma consciente ou inconsciente. 

"O Deus das Moscas" é uma obra repleta de filosofias e significados que, em conjunto, nos obrigam a meditar seriamente acerca de nós e das pessoas que nos rodeiam. Sendo nós um produto da natureza, valerá mesmo a pena a sociedade atirar-nos com mil e uma moralidades, regras, formas de ser e de estar, quando sem nos apercebermos, e numa situação vulnerável, somos expostos frente a frente com o nosso estado selvagem? Será mesmo que a educação que nos dão, assim como os valores que nos passam, é a resposta ideal para nos conseguirmos organizar dentro de um grupo onde residem a discórdia, a ânsia do poder, a tentação? Estas e muitas outras questões pairam na nossa mente, famintas por uma resposta que as satisfaçam. A cada página, sobem-nos à cabeça factos que poderão, eventualmente, tornar-se físicos e palpáveis. A cada página, assistimos ao desenvolvimento das personagens, a regressão de algumas, aos mais bizarros acontecimentos e ao mistério que poderá ser a salvação destes seres. É um livro que aconselho bastante, principalmente, devido ao enriquecimento do nosso próprio ser. É um abre olhos, um abanão, um choque que nos fará desejar melhorar a pessoa que somos.

Citações preferidas...

"Rogério recolhe um punhado de pedras e começa a atirá-las. Contudo, há um espaço em torno de Henrique, talvez umas seis jardas de perímetro, para dentro do qual não ousa arremessar. Aqui, invisível, ainda que forte, paira o tabu da vida antiga. À volta do miudito agachado ergue-se a proteção dos pais, da escola, da polícia e da lei. O braço de Rogério está condicionado por uma civilização que nada sabe dele e se encontra em ruínas." - pág. 67.
"Chegara mesmo a enxergar um deles, todo barrado de castanho, preto e vermelho, e supusera que fosse o Bill. Mas, na verdade, pensara Rafael, aquele não era o Bill. Era um selvagem, cuja figura recusava fundir-se com a daquele retrato antigo de um rapazinho de camisa e calções." - pág. 203.
"As lágrimas saltam-lhe dos olhos e os soluços sacodem-no. Entrega-se-lhes agora pela primeira vez desde que pisara aquela ilha; grandes e estremecidos espasmos de mágoa, que pareciam torcer-lhe todo o corpo." - pág. 222.

1 comentário:

  1. Este é daqueles livros que quero muito ler mas do qual nunca me lembro quando vou caçar livros! Há uns anos a in skené levou a cena o Azul Longe nas Colinas, que, numa situação menos extrema, põe as mesmas perguntas em cima da mesa: perante a possibilidade de não ter regras, será que as crianças - e nós, adultos, consequentemente - somos assim tão inocentes? Será que alguém é genuinamente inocente e bom ou os nossos instintos são mais distorcidos do que aquilo que queremos admitir? :)

    Jiji

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